sexta-feira, 9 de junho de 2017

Você precisa ler Malazan!

OBS: o artigo abaixo não contém nenhum spoiler.


Meses atrás, a editora Arqueiro lançou o primeiro volume de uma série de 10 livros (a campanha em Malazan não é para preguiçosos, como bem diz o autor na introdução). Existem outros livros e contos que se passam no mesmo universo, mas essa é a linha de acontecimentos principal. Já havia grande expectativa, pois, a obra do canadense Steven Erikson sairia pela Saída de Emergência ano passado, mas a editora decretou falência e os fãs ficaram tensos por um tempo. Felizmente, a editora Arqueiro absorveu a filial da editora lusitana e arcou com grande parte da agenda original, finalizando trilogias previamente lançadas até!

O primeiro volume se chama Os Jardins da Lua e nos apresenta sem perda de tempo ou “tutoriais” como aquele mundo de fantasia medieval funciona. Num estilo “chutando a porta” o autor não perde tempo com didatismos e foge da já clichê “jornada do herói”, tão optada por escritores iniciantes. Além disso, Malazan não é maniqueísta. Não tem isso de personificações absolutas do Bem e do Mal. O livro é uma fantasia medieval com os dois pés no tão aclamado gênero de “espada e feitiçaria”, ou seja, é cada um por si e vamos sobrevivendo dia após dia. E não pule a apresentação da obra! Escrita pelo próprio autor, ele explica que grande parte da trama e dos personagens nasceram em sua campanha de RPG. Ele pegou o GURPS, modificou o sistema de magia para um que lhe agradasse mais (que é usado de fato, na ambientação apresentada). Esse sistema de magia é um dos pontos altos do cenário, mas falarei mais daqui a pouco. Ele tentou vender o material compilado em todos aqueles anos como um filme, mas a indústria cinematográfica no final dos anos 90 não estava interessada nisso. Apesar de Steven ter ficado chateado quando uns dois anos depois, estreava A Sociedade do Anel. Mas enfim...


Lankhmar? Não, essa é Darujhistan.
Mas tão perigosa quanto!
Para ser mais direto possível, diria que O Livro Malazano dos Caídos (como a saga veio oficialmente traduzida) é uma mistura perfeita de Lankhmar de Fritz Leiber com A Companhia Negra de Glen Cook. O livro é estruturado a partir de vários pontos de vista (mais ou menos como George R.R. Martin faz), logo não há o ponto de vista oficial de um protagonista. E isso é já suficiente para recuperar o folego de leitores vorazes de fantasia, que buscam uma nova saga para acompanhar, mas sem cair nos mesmos tropes e clichês. O sistema de magia adotado é de fato interessante. Magos podem acessar Labirintos que fornecem poder. Quanto mais poderoso o mago for, mais Labirintos ele consegue acessar e acionar na hora de um combate, por exemplo. E quanto a premissa do primeiro livro?

Em suma, o primeiro livro nos situa na campanha Imperial para conquistar as Cidades Livres. Quem tiver controle desses centros comerciais, controla o continente. Os soldados mais eficientes compõem a tropa de elite conhecida como “Queimadores de Pontes” e cada exército possui um quadro de magos, para efeitos de destruição em massa, comunicação, logística e espionagem. Como na Companhia Negra, eles fazem o trabalho que a tecnologia cumpriu nas nossas Grandes Guerras Mundiais. Na trama, nossos personagens descobrem que a Campanha que participam é muito mais complexa do que achavam, havendo sabotagens de dentro, e até mesmo a participação dos Ascendentes (como os deuses são denominados no cenário). Essas entidades não só possuem sua própria agenda, como tomam emprestado corpos mortais para realizar suas tarefas no plano material.

Grande parte do elenco.
 Para os fãs de RPG, está tudo lá: ladinos, guerreiros, magos, itens mágicos de uso único, artefatos, um panteão completo, grupos sendo formados, cenas cômicas e cenas realmente épicas. Some esse cenário com personagens carismáticos, Guildas de Assassinos, conspirações entre regentes e terá a receita de um livro inteligente que não subestima seu leitor. Isso de fato é um diferencial em qualquer obra, em qualquer média.


Leitura recomendadíssima! Em breve teremos outro post, com spoilers e sobre os mistérios que ficaram sem resposta no primeiro livro. Abraço a todos.

4 comentários:

  1. Tava curioso sobre essa história.
    Ouvi dizer q a editora só lança o resto se vender bem o primeiro...isso me deixa com um pé atrás de comprar iniciar a leitura.
    Boa resenha me deixou mais curioso.
    Abs!

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    1. Literatura especulativo está em alta. Nos grupos literários, Malazano sempre teve destaque e divulgação. Muito certo da editora lançar os outros. Grande abraço.

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    2. Ranieri, tira uma dúvida...
      Vi em um site de livros dizendo que quando se lê o Jardins da Lua, vc tem que ficar fazendo constantes consultas nos apêndices para saber sobre nomes entre outras coisas.
      Sendo assim a versão e-book não seria tão viável de se ler. Isso confere? É melhor ter a edição física?

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    3. De fato acontece bastante. Por dois motivos: são muitos personagens e todos tem um pequeno background assim que a história inicia. Suas ações durante a trama, estão diretamente ligadas a isso. Mas confesso que não me incomoda. Apesar de ter um Kindle, amo passear pelas páginas analógicas. Abraço.

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