quarta-feira, 2 de março de 2016

Nostalgia: Encarte da Abril Jovem


Nos anos 90, tivemos um boom épico de lançamentos de RPG aqui no Brasil. Catapultado pela Grow lançando o D&D e a Estrela lançando o Heroquest, as editoras viram um bom nicho aí por motivos óbvios: já trabalhavam com livros, tradução, impressão, etc. Assim, quase todas as grandes editoras, selecionaram alguns jogos para lançar no cenário nacional e ocupar uma fatia desse novo mercado. A Ediouro lançou Shadowrun e alguns suplementos logo de cara, a Saraiva lançou Aventuras Fantásticas e seu mundo de Titan, a Devir com o seu GURPS. Até algumas editoras independentes entraram na briga. Naturalmente, a maior das editoras (naquele momento), escolheu o maior dos RPGs (naquele momento). E assim, a Editora Abril Jovem, disparou vários lançamentos.

 Para o seu marketing, ela atacava principalmente nas bancas de jornal, ao ponto de botar para vender seus manuais básicos nas mãos dos jornaleiros. Além disso, como a Abril Jovem tinha basicamente o monopólio dos quadrinhos, nada mais natural que usar esse veículo para divulgar o novo produto. Agora chegamos ao assunto desse artigo: o saudoso catalogo de lançamentos vindouros da Abril. Esse encarte vinha de duas formas: a mais comum era grampeado nas páginas centrais dos quadrinhos da Marvel e da DC. A segunda forma era solto, dentro de outros produtos comprados da editora. É triste olhar para ele e ver vários produtos que nunca viram a luz do dia por aqui. Vamos falar de cada produto constado:

Os Mundos da Magia

Era um portfolio da TSR, mostrando com belíssimas artes, como eram os mundos vindouros. Eram imagens em full page art, que tentavam passar o clima de cada ambientação. A fantasia tradicional de Forgotten Realms e Mystara, a fantasia épica de Dragonlance, os horrores de Ravenloft, o lado exótico e descontruído de Dark Sun, Gamma World e Planescape. Se não me engano foi lançado em quatro fascículos juntamente com os decks de SpellFire.

SpellFire

Esse era o cardgame da TSR, depois de ver a nova febre do momento: o tal do Magic the Gathering. Era um cardgame que joguei bastante (ainda tenho as cartas), e era até bonito, apesar de usar desenhos previamente usados nos livros de RPG. Eles pegavam uma arte linda do Elmore por exemplo e desmantelam o desenho, “criando” diferentes gravuras para as cartas. Uma virava a “bota do mago”, outro virava o “cetro do mago”, outro com a cara do mago, assim por diante. Uma rataria só! Por fim, no Brasil só tivemos a 1ª edição e foi descontinuado.

Série “Você é o herói”

Essa foi uma série de livros-jogos da TSR. Tive alguns, mas lembro que eles só permitiam você escolher o caminho do herói. Não havia testes, não usava dados, nem tinha combates, como a série Aventuras Fantásticas da Steve Jackson Games. Por isso sempre foram vistos como os “primos pobres” dos verdadeiros livros-jogos. No Brasil, saíram os 3 prometidos pela Abril.

Trilogia Dragonlance

Os famigerados romances de abertura de Dragonlance só saíram por aqui, uma década depois, pela Devir. Pelas capas, parece que o plano da Abril era lançar por aqui, as versões de Portugal, mas infelizmente não rolou. Na época, ficamos na vontade mesmo...

Dragon Magazine

Durou cerca de 10 edições e no inicio ainda houve uma pequena confusão com uma OUTRA Dragon Magazine que estava saindo por aqui. Essa “outra”, é nossa amada Dragão Brasil. O Trevisan disse que a Abril ligou pra eles depois de alguns dias e disse: “olha, vocês tem que mudar o nome da revista de vocês pois vamos trazer a revista americana e nós pagamos os direitos dos produtos deles”. O resto é história, certo?

First Quest

No Brasil, para baratear, a Abril lançou em 2 kits mensais. Nunca achei nas bancas, mas comprei o meu na Bienal do Livro aqui no RJ. Durante uma excursão escolar. O material era riquíssimo, contendo tudo o que pode chamar atenção em uma mesa de jogo: livros, dados coloridos, miniaturas, mapas, encartes, escudo do mestre e até um CD, descrevendo e dramatizando as aventuras prontas que acompanhavam o jogo. Bons tempos jogando First Quest no recreio escolar. A cagada aqui, na verdade, é que eles lançaram os kits DEPOIS dos Livros Básicos. Além do forte apelo visual, não valia a pena comprar uma versão demo de um jogo que já havia sido lançando meses atrás completo. Resultado: esses kits pegaram muita poeira nos estoques da editora. Uma verdadeira “falha crítica” da Abril Jovem!


Coleção “Grandes Manuais”

Opa! Agora sim: esses foram o carro-chefe da editora. Os três livros básicos do sistema Ad&d 2ª edição: o Livro do Jogador, o Livro do Mestre e o Livro dos Monstros, lançados nessa ordem. A qualidade dos livros era muito boa, mas eles tinham muitos erros de impressão (principalmente o Livro do Jogador) ao ponto de vir acompanhando de tabelas impressas para você colar por cima das tabelas do livro. Cerca de 10 tabelas estavam erradas! Mas enfim, fez sucesso, mas não foi lucrativo. Já vi um dos editores da época dizer que a Abril achava que todo jogador de RPG no Brasil iria comprar os 3 livros. O que sucedeu é que apenas um do grupo comprava (geralmente o Mestre) e só. Isso matou a venda dos livros e dizem que as caixas ficaram empilhadas nos estoques por anos! Hoje, esses livros são vendidos a preços surreais “pelas internets da vida”.

Karameikos

Novamente, lançado aqui em dois kits, era um mundo de fantasia tradicional que fundiu materiais apresentados em suplementos menores ainda na época da 1ª edição do Dungeons & Dragons. Se o First Quest funcionava no mercado como um ABC do RPG, Mystara era o ABC dos cenários de campanha.

Night of the Vampire

Uma aventura de terror passada no cenário de Mystara. Esse nunca foi lançado aqui. Parece que os produtos desse catálogo foram divididos pela Abril em duas (ou mais) levas de lançamentos. Como os lucros aguardados pela primeira leva nunca vieram, anularam completamente as posteriores.


Forgotten Realms

Mais um lançado em 2 kits. Trazia o mais famoso e completo cenário para o Ad&d. Confesso que a Abril fez um ótimo trabalho com esse aqui. O material era fiel ao americano e respeitaram uma das principais regras da tradução: NÃO SE TRADUZ NOME PRÓPRIO PORRA! Logo, Waterdeep, se chamada Waterdeep, Baldur´s Gate, se chamada Baldur´s Gate. Simples não é? Como ia dizendo, o material é incrível, muita descrição do cenário, dos NPCs, das organizações, dos deuses. Essa “caixa” vinha com tão pouca regra, que pode ser usada para qualquer outra versão do D&D que estiver jogando.

A Ruína de Daggerdale

Essa era uma aventura que se passava na Terra dos Vales em Forgotten Realms, mas acredito que nunca saiu aqui. Foi embora com os outros produtos cancelados.

As Ruínas de Undermountain

Esse saiu bem no final da linha. Era uma expansão do Undermountain, a maior masmorra já criada (pelo menos em sua época de lançamento). Apresentado um cenário dentro do cenário de Forgotten Realms, imenso com todo um ecossistema e hierarquia entre as raças que habitavam esse subterrâneo. “Pra variar”, lançado em dois kits.

Ravenloft, névoas do terror

Esse é o produto cancelado que dá uma dor no coração. Seria a caixa básica do cenário de terror gótico do Ad&d. Uma década depois, a Devir nos trouxe o Domínios do Medo que era todo o material gringo compilado e revisado em um livrão. Mas infelizmente ficamos sem essa caixa nacional, que viria com lindos mapas, o baralho dos Vistani, um escudo do mestre personalizado. Uma pena...


Por fim, encerro aqui o Momento Nostalgia da semana. Foi uma época bem inocente onde era dada muita importância para cada fragmento de informação, devido à escassez de fontes, ainda mais para nosso hobby. Em breve, mais resenhas de outros produtos clássicos.

Bons jogos a todos!

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