segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Nostalgia: Dungeoneer


Depois de falar de TITAN e dos clássicos livros-jogos, nada mais natural falar do RPG lançado pela Editora Marques Saraiva: o Dungeoneer. Esse era o livro que trazia todas as regras avançadas para seus jogadores montarem os heróis em Titan, com regras expandidas das já apresentadas nos livros-jogos. Curioso observar que as editoras gringas (a TSR com o AD&D e a linha Fighting Fantasy com o Dungeoneer) tinham a duvidosa estratégia de vender esses livros como “regras avançadas”, seja no nome ou como um selo impresso na capa, o que era um tremendo desserviço, pois intimidava e afastava iniciantes.

Enfim, Dungeoneer, atingiu as prateleiras brasileiras em 1993 e em suas quase 400 páginas apresentava um sisteminha bastante simples, trazia ainda aventuras prontas, dicas para o Mestre, listas de magias e equipamentos e em suas últimas páginas, personagens prontos. Infelizmente ele fazia de maneira confusa: navegar pelo livro é uma verdadeira “dor de cabeça”. Percebe-se que os autores (os ingleses Steve Jackson e Ian Livingstone), queriam que durante a leitura, o jogador tivesse uma experiencia didática e orgânica, mas na prática, um livro de regras de RPG não funciona assim. Logo, o livro reveza entre informações para o Mestre, informações para os jogadores, aí entra uma aventura pronta, depois regras simples, depois mais informações e dicas, depois regras complexas, e pra finalizar uma segunda aventura pronta. Confuso, certo? Mas não se engane: eu apenas quis tirar os pontos negativos da frente logo de cara. Dungeoneer é um RPG simples extremamente divertido e inspirador!

A ficha é bem simples e isso é ótimo!
Usando apenas dados de 6 faces, 3 atributos, uma ficha minimalista, e uma arte PB fantástica, o jogo é capaz de emular um incrível clima old school. “Mas então: apenas 3 atributos?” – você pergunta. Sim, os mesmos dos livros jogos: Habilidade (que representa a tanto a Agilidade quanto a Sagacidade do seu personagem), Energia (que funciona como Resistência e Pontos de Vida) e a Sorte. Esses aspectos funcionam muito bem, por serem abstratos. Isso garante que por exemplo, uma porta pesada possa ser aberta usando força bruta ou que você ignore ela e escale a torre por fora. Ambas as tarefas, são resolvidas com o mesmo atributo, mas pela a abordagem dada pelo jogador e sua imaginação, criaram resultados diferentes DENTRO da história. A sua constituição representar diretamente seus pontos de vida é uma sacada bastante elegante também. Quanto mais dano recebeu, mas difícil será resistir à um veneno, por exemplo. A Sorte é o quão favorecido dos deuses, o personagem é. O mestre pode solicitar um teste de Sorte para determinada situação ou o próprio jogador, mas toda vez que o fizer, ele reduz 1 ponto de Sorte, automaticamente. Conan ao invocar Crom, por exemplo.

E se eu quiser montar um personagem capaz de utilizar magia? Simples: ele anota Magia como uma de suas habilidade Especiais e destina pontos de seu próprio Atributo Habilidade para ela, mas diferente de outras habilidades especiais, esse valor despendido será REDUZIDO no total final do atributo. Logo, se o seu personagem deseja ser um mago, e ele tem Habilidade Inicial de 10, pode distribuir seus 10 pontos normalmente entre as Habilidade Especiais, colocar Magia 5 e no final do processo, reduzir o total do atributo em 5 pontos. Isso representa os anos de treinamento em laboratório ou em uma escola de magia, por exemplo.



Ainda falando de magia, o Dungeoneer opera com um sistema de Magia bem interessante. Não é “vanciano”. O mago pode logo de cara, encontrar ou ter acesso a magias bem poderosas, mas cada uma possui custos de Energia. O livro recomenda de custos até 4 pontos. Quando essa mana “esgotar”, nenhum efeito poderá ser realizado. Lembra a magia usada por Raistlin em Dragonlance. Além disso, cada efeito realizado, o mago deve passar em um teste de magia. Uma falha crítica nesse teste, pode ter resultados desastrosos, digno das tabelas do Dungeon Crawl Classics. 


O combate tem nuances bem inteligentes também como comparar o valor de ataque e defesa. Se o atacante superou nesse total, pega-se a diferença e verifica-se de acordo com a arma usada numa tabela específica para verificar o dano causado. Dica: separe uns marcadores de página para agilizar a consulta a essas tabelas, pois elas ficam espalhadas pelo tomo, como citei.

O livro básico junto com o Livro dos Monstros e o Cenário de Campanha.
O livro assume que os personagens serão humanos, pois eles são maioria em Allansia, mas ainda traz regras para anões e elfos, apesar de reforçar que aventureiros dessas raças são extremamente raros. Esse tipo de afirmação simples, por exemplo, ajuda muito ao criar o clima fantástico e misterioso para o grupo, logo de cara. Entretanto, se visar algo mais high fantasy, outras raças podem ser criadas fácil e rapidamente nesse conjunto de regras. Outro ponto positivo é que o conjunto de regras é bem flexível e versátil. Sem aspectos restritivos como classe de personagem, por exemplo, sendo assim possível, criar um espadachim que usa algumas magias (como Elric), sem dores de cabeça ou mecânicas complicadas para tal. Para os entusiastas da escola véia (como diz o Tio Nitro), e os saudosistas das Aventuras Fantásticas, é impossível não ficar inspirado com a arte de John Sibbick.
 
O sistema e a arte combinam muito bem com Lankhmar.
Inquestionavelmente, Dungeoneer hoje é considerado um clássico. Se tiver a oportunidade de encontrar esse livro a um preço em conta, não deixe de pegá-lo. Um sistema simples e divertido, pena que usa páginas demais pra afirmar isso...
Em breve farei uma resenha sobre o Out of the Pit, o livro dos monstros de Dungeoneer. Abraço a todos e bons jogos.  

31 comentários:

  1. Os livros de regras até podem ser encontrados com preços (mais ou menos) viáveis, mas "Out of the Pit" e "Titan" são achados bem caros!

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    1. Sim, de fato. Para os interessados, recomendo ficar de olho no Mercado Livre e na Estante Virtual. Abraço!

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    2. Apesar de "Dungeoneer" (e sua continuação/complemento, "Blacksand") serem chamados de "avançados", existe o livro "RPG Aventuras Fantásticas" que vinha com o básico do básico (que é expandido "Dungeoneer"). Acho até que é mais fácil de encontrar do que os demais.

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    3. Por um tempo ele até foi mais fácil. Curiosamente, hoje em dia é o inverso. Pelo menos é o que as minhas pesquisas no ML e na EV indicam.

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    4. tenho um aventuras fantásticas sobrando :P

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  2. consegui os quatro :) Meu sonho agora seria Allansia em pt-br

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    1. Aqui na minha estante faltam "Out of the Pit" e "RPG Aventuras Fantásticas".

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    2. O "Out of the Pit" está por volta de 80 contos no Estante Virtual. O Aventuras Fantásticas está 120! Absurdo! O Dungeoneer, que é bem mais completo, está um terço disso.

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    3. O Allansia em português só se for milagre ou se uma alma bondosa traduzir. Após anos eu comprei um Allansia pra mim, em inglês claro...heheheh
      Mas queria em português também...

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    4. O Allansia em inglês, hoje em dia, está bem raro!

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    5. Paguei um preço absurdo por ele pra um colecionador se desfazendo da coleção. Mas ainda mais barato do que se fosse importar. É realmente um item bem raro. No momento é a joia da minha coleção de aventuras fantásticas. Superou o "Escravos do abismo".

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    6. pior que nem um scan bom do Allansia se acha :|

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    7. Vou te dizer que o livros é bem ruim pra scanear. Fiquei tentado a iniciar uma tradução quando comecei a ler para quem sabe no futuro ter ele em português do lado dos outros. Mas acho que se eu por ele em um scanner detono o livro, o acabamento dele e o papel é inferior ao do dungeooner e blacksand que saíram aqui.

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    8. De fato. Além do tamanho incomum dos livros, eles possuem uma encadernação fragil e um miolo com aquela cola que "petrificava" com o passar dos anos. A solução seria redigitar e replicar a diagramação. Baita trabalho...

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    9. Eu até comecei um OCR em cima do unico scan que achei, pra dar material pra quem quiser traduzir. Mas no meu ritmo vou demorar anos (e tenho de terminar o OCR do Dicionario Marvel antes :P)

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  3. Ótima resenha. Sempre tive o livro de Titan e joguei muitos livros jogos, mas nunca tive o Dungeoneer.

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    1. Obrigado Diogo. Vale a pena ir atrás dele. Vi hoje mesmo na Estante Virtual por algo em torno de 20 reais.

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  4. pergunta tosca: o livro Aventuras Fantásticas (o com dragão vermelho) tem algo a ver com essa série?

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    1. Sua pergunta é deveras interessante, na verdade. Esse livro que mencionou apresenta as regras simples desse mesmo sistema resenhado. O Dungeoneer possui as regras simples e as avançadas.

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  5. Então seria algo tipo D&D = Aventuras Fantásticas, AD&D = Dungeoneer? E BlackSand, Allansia, Titan e Out of the Pit, suplementos XD

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    1. Hum, não sei se faria essa comparação. O Dungeoneer tenta cobrir muitas situações com regras específicas e tal (como esquiva, lutar no escuro, etc), quando ele é tão simples que o Mestre é capaz de pensar em bônus ou penalidade para esses testes, facilmente. Por fim, ele simplesmente expande o que já havia sido apresentado tanto nos livros-jogos quanto nesse "Aventuras Fantásticas - Uma introdução para os RPGs". Espero ter ajudado.

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  6. E não esqueça do Blacksand! É outro que merece uma boa resenha. O melhor gerador de cidades para cenários de fantasia que já vi!

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  7. Bem lembrado. Em breve farei uma resenha só dele. Abraço!

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  8. Blacksand! foi o meu primeiro, comprei logo quando me mudei pro Rio, perdido em uma estante da Saraiva. Depois fui atrás dos outros livros, começando com o Dungeoneer, depois o Aventuras Fantásticas, Titan e Out of the Pit.

    Achei que durante a faculdade ia mestrar para o povo daqui usando Dungeoneer, mas demorei até encontrar quem de fato quisesse jogar e tivesse tempo e disponibilidade.

    Era uma pena o próprio Dungeoneer não vir com uma ficha de dragão (que vinha no Aventuras Fantásticas).

    Eu estava jogando em uma mesa no mundo de Titan usando as regras do BFRPG (basicamente D&D B/X), mas estamos em um hiato de alguns meses.

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    1. Olá Bruno! Em breve teremos um post específico para Out of the Pit e outro para Porto Blacksand. Tomara que também revivam essas boas lembranças. Sempre que leio esse material dá vontade de montar uma mini-campanha. Se o fizer, reportarei aqui no blog. Grande abraço!

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  9. Quem gosta da ambientação, vale garimpar os romances, "As Guerras de Trolltooth" e "Demonstealer".

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  10. As Guerras de Trolltooth é muito bom, de fato. Demonstealer nunca nem tive em mãos. Por fim, bem legal ver que a galera ainda tem muito carinho por esse material.

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    1. As Guerras de Trolltooth é um clássico da fantasia. Não sei porque ele não é um romance mais famoso. O Demonstealer não mantem a qualidade e não é tão bom quanto o primeiro, mas tem uma boa história.

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  11. Em meio a era da tecnologia, parabenizo a que ainda propaga a cultura da leitura e da criatividade.

    RPG é vida!

    Meus sinceros parabéns. Já coloquei como favorito aqui.

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    1. Valeu José! Comentários assim nos ajuda a continuar! Grande abraço!

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