segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Resenha: King Arthur Pendragon


Só de folhear esse livro, você ganha pontos de Glória!

Minha relação com Pendragon pode ser pontuada em 3 momentos: em 1997 quando um primo de um amigo meu que morava em Niterói, disse que iria narrar um RPG de baixa fantasia, apenas com humanos. Ele devia ter uns 18 anos na época e eu, um mero juvenil que ainda estava deslumbrado com o Ad&d e suas inúmeras possibilidades. Torci o nariz: “putz, um jogo apenas com humanos cavaleiros e que se passa apenas na Inglaterra? O que são meros humanos montados em cavalos ao lado de paladinos, magos, clérigos, ladrões, rangers, druidas e guerreiros? O que é a pobre Inglaterra ao lado de Forgotten Realms e suas maravilhas? Jogamos apenas uma sessão. Foi legal, mas na ocasião, não me fisgou. Ainda não estava com bagagem suficiente. O segundo momento, foi em 2010 quando comprei um livro importado sobre a Idade Média em um sebo em Copacabana e dentro dele, veio uma misteriosa ficha dobrada. Olhei atentamente e vi que era de um gringo que havia esquecido sua ficha de Pendragon 4ª edição. Aquilo acendeu uma fagulha que virou um incêndio no terceiro ato: quando o Rafael Bezerra estreou em abril de 2012, seu podcast (clique aqui pra escutar os episódios) sobre o jogo, na Terceira Terra. Finalmente me vi refletindo: “cara, porque eu ainda não estou jogando Pendragon?”

1 – Contexto

Leitura obrigatória e em português.
A mitologia arthuriana está dissolvida há tempos na cultura pop: quadrinhos, literatura, cinema, TV, animações, jogos eletrônicos, boardgames, música, em todo tipo de mídia há uma representação direta ou indireta da lenda. Todos já tentaram dar sua interpretação de uma das principais lendas da humanidade. Arthur era cristão ou pagão? A Távola Redonda foi de fato formada? Arthur fora corado mesmo? Arthur existiu, pra início de conversa? Independente das questões levantadas, o autor Greg Stafford se prende principalmente nas obras clássicas Le Morte D’Arthur de Sir Thomas Malory e os registros de Chretien de Troyes. Tais obras foram lançadas no Brasil pela Martins Fontes décadas atrás. Vale à pena ter esses livros na estante.

2 – O personagem

Brasões famosos.
Você é um cavaleiro da corte. Um jogador leigo pode achar que isso não basta para individualizar e dar vida ao seu personagem, mas saiba que o jogo trabalha muitos elementos, sejam de mecânicas ou de histórico para fazer nascer diante de seus olhos, um personagem rico, motivado por conflitos internos (ganância, ódio, amor, piedade, coragem, etc) ou externos (saxões invasores, traições, complôs entre as famílias, etc). Durante a criação de personagem, você determinará seus atributos, seus ideais, como ele encara a nova religião, os antigos costumes, seus familiares, suas conexões com o mundo ao redor e até desenhar seu brasão! Difícil é não se apegar ao personagem logo de cara!

3 – As regras

Pendragon possui muitas mecânicas específicas sim, mas considero um jogo bem feito, onde cada regra é justificada pela temática proposta. Regras para combate mano a mano, torneio, justas, caçadas no bosque, regras de comportamento na corte e até para romance. No final, tais regras elas são enxutas e até elegantes, e o mais importante: inspiradoras. Pegue por exemplo, minha etapa favorita do jogo: A Fase de Inverno, etapa essa, que pontua o final da sessão de jogo (é recomendado que cada sessão decorra um período de 1 ano). Por ser um jogo de gerações, nessa etapa, você envelhece, cria oportunidades para se casar, ter filhos, enriquecer um pouco mais ou ter problemas financeiros em suas terras, sua esposa pode morrer dando a luz, você pode treinar uma perícia, seu cavalo pode quebrar a perna, um escândalo na corte pode ser acionado (alguém lembra-se Tristan e Isolda?), entre outros eventos. São muitos elementos que podem vir a ser sementes de trama para o ano vindouro.

4 – Magia

Existe magia em Pendragon? Sim. Então eu posso ser um mago? Não. A magia de Pendragon é rara e misteriosa. Pode ser sutil como o florescer de um broto ou espetacular como a aurora boreal. Ela está ao alcance apenas dos NPCs. O povo tem sim suas superstições e dizem conhecer o sobrenatural a certo nível, mas está única e exclusivamente nas mãos do Narrador QUANDO e COMO ela vai se manifestar. Exige bom senso. Em poucas palavras, é como ler Bernard Cornwell e esperar alguém pronunciar palavras mágicas e sair voando diante de seus olhos.

5 – Considerações finais
  
Hoje em dia, Pendragon está em sua versão 5.1 pelas mãos da Nocturnal Media, mas nasceu na Chaosium em 1985. A versão que tenho e que ilustra esse post é sua 3ª edição. Independente disso, Pendragon é uma obra-prima e um jogo único, é impossível compará-lo com outro RPG. Ele é repleto de ferramentas para ajudar o Narrador a dar vida ao seu jogo e a sensação de estar vivendo em um sonho há tempos esquecido. Jogar Pendragon é conviver com reis e rainhas, desafiar cavaleiros arrogantes, salvar donzelas, explorar florestas misteriosas, tecer canções e também chutar a bunda de saxões.

Bons jogos a todos!   

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Valeu Rafael, é um livro complicado de resenhar. Exige paixão pela proposta. É fácil de perder falando dos pormenores mecânicos ou apenas compará-lo com jogos mais mainstream. Abração.

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  2. Respostas
    1. Sim, com esse boom editorial, talvez alguém se interesse em trazer a 5a edição dele. Obrigado por ler e comentar.

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